O regime de Myanmar e Aung San Suu Kyi
Em jeito de continuação do post anterior – e porque, para percebermos o que se passa hoje, temos que compreender o que se passou “ontem”-, aqui vai um pouquinho de História (peço perdão pela extensão do texto, mas não consigo resumir mais):
Estávamos no belo ano de 1962 quando o General Ne Win comandou um golpe de estado militar que derrubou o governo democrático que governava na altura a Birmânia. Desde aí, e até 1974, o país foi governado por um concelho revolucionário chefiado pelo General que nacionalizou e passou a controlar quase todas as áreas da sociedade (média, empresas, etc.). Não satisfeito, e de forma a consolidar o seu poder, Ne Win demitiu-se do seu cargo militar e, juntamente com outros ex-Generais, constituiu eleições num sistema uni-partidário.
And, surprise surprise, o partido de Ne Win “ganhou” as eleições e este pôde governar tranquilamente até 1988. Contudo, o senhor tinha dois problemazinhos: primeiro, pelos vistos o seu jeito para governar era escasso e, em pouco tempo, a Birmânia transformou-se num dos países mais pobres do mundo; segundo, parece que as pessoas – vá-se lá saber porquê – gostam de pensar pelas suas próprias cabeças e não apreciam muito sentir-se reprimidas. Agora é só juntar repressão com falta de dinheiro para comprar comidinha e temos uma fórmula mágica que resulta em protestos por todo o lado.
Ora o senhor, como qualquer bom ditador, não gosta de ser perturbado no conforto do seu lar por pessoas aos gritos e mais não sei quê. Vai daí, toca a correr tudo ao tiro.
Em 1988, num destes protestos pró-democracia em larga escala em que as forças de segurança matam mais alguns milhares de protestantes, o governo sofre um golpe de estado. Até aqui tudo bem, pensamos nós, coitadinhas das pessoas que estavam a sofrer tanto, mas ao menos agora vem alguém para as salvar… Pois, o que falta referir é que este golpe foi deferido por outro General, desta vez o Saw Maung, que criou o Conselho de Estado para a Restauração da Lei e da Ordem, nome bonito para um regime militar que de imediato declara lei marcial para lidar com os protestos.
Mas aparece uma luz ao fundo do túnel quando em 1990 o governo convoca as primeiras eleições livres no país em quase 30 anos. O partido de Aung San Suu Kyi, a líder da oposição, ganha as eleições. Alegria alegria, fora o facto de estas terem sido anuladas pelo governo militar que se recusou a deixar o poder e de terem posto Suu Kyi em prisão domiciliária (que duraria 20 anos).
Em 1992 Than Shwe passa a chefiar o regime e lá continua até 30 de Março de 2011 (altura que se reforma e escolhe o seu sucessor, Thein Sein). Os protestos continuam, por parte de civis e monges budistas, e a junta militar continua a resolvê-los como tão bem sabe.
Em 2006 a Organização Mundial do Trabalho denuncia ao Tribunal Internacional de Justiça membros da junta militar por crimes contra a humanidade, existindo relatos de trabalhos forçados, tráfico de pessoas, trabalho infantil e utilização de violência sexual como instrumento de controlo.
Em 2008 é aprovada uma nova constituição, supostamente votada pela população, que reserva um quarto das vagas do Parlamento para o Exército.
Por fim, em 2010, novas eleições. A Liga Nacional pela Democracia é proibida de participar e o partido é dissolvido. Em “troca”, e como prova de boa fé para a comunidade internacional, libertam Aung San Suu Kyi após 20 anos de prisão.
Só mais uma linhazinhas para referir que Suu Kyi investiu todo o dinheiro do Prémio Nobel recebido em 1991 na saúde e educação da população da Birmânia.

Sim senhor, um relato digno de José Hermano Saraiva!! :)
ResponderEliminarMMA